Em entrevistas, a diretora de fotografia russa Evgenia Alexandrova comenta de forma espontânea sobre a relação da obra com sua própria vivência durante a ditadura na Rússia, antes de se estabelecer em Paris. Ainda assim, o foco aqui se concentra exclusivamente nas escolhas visuais e técnicas.
Desde os primeiros minutos, percebe-se uma abordagem luminosa distinta, marcada por rigor técnico e sensibilidade estética. A presença de Alexandrova se evidencia na construção da luz e na composição dos planos, revelando uma condução mais precisa e criativa em comparação a produções nacionais recentes, geralmente mais convencionais.
Destaca-se o uso de cores quentes e primárias, aplicadas de forma direta e consciente. Como defende a própria diretora, o azul é azul, o vermelho é vermelho e o amarelo é amarelo, uma escolha que valoriza a pureza cromática. Ambientado em Recife, cidade cuja luz e paleta natural são intensas, o filme se beneficia dessa relação entre cor, espaço e atmosfera.
Os enquadramentos seguem majoritariamente esquemas clássicos, bem executados e tecnicamente seguros, dialogando também com as demandas atuais de múltiplos formatos e plataformas. O resultado é uma fotografia consistente, eficaz e visualmente interessante, ainda que pouco ousada em termos de linguagem.
Sente-se, porém, a ausência de uma construção narrativa da luz, capaz de evoluir junto à dramaturgia. A proposta aposta em uma fórmula bem aplicada, que gera boas imagens, mas sem buscar maior inovação.
No cenário internacional, a direção de fotografia alcança um nível sólido, embora convencional. No contexto nacional, destaca-se pela qualidade técnica.


